terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Feliz Ano Novo



Feliz Ano Novo

Com ou sem votos de feliz ano novo, a vida vai continuar a mesma. Com suas perdas e seus ganhos. Ou ganhos e perdas. Porque as coisas são assim. Mas ainda assim vamos desejar os votos de final de ano. Ajuda-nos a renovar a esperança e a fé.

Em 2015, meu filho fez um ano, aprendeu a andar, a correr. Está reinventando o mundo com sua linguagem e seu espanto original. Desejo que, em 2016, ele complete dois anos, ensinando-me a pedagogia do desaprender – este pequeno Caeiro. Que minha filha complete dez anos e continue atenta a eterna novidade do mundo.

Em 2015, o sonho do carro soçobrou. A ilusão de que pertencemos ao grupo privilegiado. Que se realize em 2016, antes de pagar as setenta e duas prestações. O sonho da casa própria também não saiu do papel, aliás, do sonho. Que, em 2016, ao menos um arquiteto ou um projetista transforme-o numa folha de papel manteiga ou em um desenho num programa gráfico de computador.

Em 2015, não tive doença grave, não sofri acidente – apesar dos riscos de pilotar uma moto –, não fui assaltado, nem morto em uma esquina qualquer por uma infeliz coincidência ou por uma deliberada barbárie. Que, em 2016, Deus, a sorte, o acaso, as felizes coincidências me protejam. E as armas e roupas de São Jorge, a mim e a todos. Mas acho que o santo vai ter modernizar a fundição e a confecção.

Que, em 2016, não aumente meu mapa de ausências: o pai, o avô, a avó, um tio, um primo, um amigo. Que eu mesmo não me perca em meu mapa de ausências. Que 2016 seja um ano de rever um parente distante, mesmo que seja num enterro. Mas acho que o melhor e ler as Intermitências da morte, de Saramago ou, como diria os portugas antigos, o melhor é crer em Cristo.

 Que, em 2016, mesmo que tenha certeza que as coisas mudem pouco, eu seja um professor melhor e que tenha alunos melhores. Que sejamos capazes de partilhar o sabor do saber. 

Por mais que fique com a certeza de tudo piorar, como afirma o poeta, por mais que os políticos se escondam nos discursos fajutos dos situacionistas e dos oposicionistas, nas bandeiras dos partidos e nas próprias conveniências, por mais que todos sejam da mesma legião, ainda assim desejo um ano menos sujo para o país. 

Enfim, desejo que 2016 seja melhor que 2015, mesmo que a vida vá além do que desejo. Desejo, porque é do humano desejar. 

No dia da virada, impassíveis no céu límpido ou sobre as nuvens, as estrelas brilharão como sempre fizeram, mesmo antes de estarmos aqui. À mesa, faltarão alguns convivas.
Mas como lembra Quintana:

O bom das segundas-feiras, do primeiro dia de cada mês e do Primeiro do Ano é que nos dão a ilusão de que a vida se renova... Que seria de nós se a folhinha estivesse marcando hoje o dia 713.789 da Era Cristã?"

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Uma leitura, um tema, dois contos: O amor como deve ser, de Mayrant Gallo e Iniciantes, de Raymond Carver.


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Marte e Vênus. *Extraída do Web Site do Museu de Artes de São Paulo - Masp.

Li numa aula o conto “O amor como deve ser”, do livro O inédito de Kafka (2003), de Mayrant Gallo. Ao terminar a leitura, um silêncio incômodo se estendeu sobre a sala. Esperei algum comentário sobre o texto, alguma fala. Nada. Perguntei então o que acharam do conto. Uma aluna respondeu que o conto deveria se chamar “O amor como não deve ser”.
Ela leu o conto apenas pela história, pelo “acontecimento” (LEWIS, 2009). Como a história lhe causou uma impressão desagradável, sua solução, a princípio, foi mudar o título da história para que ganhasse um sentido negativo, de censura. Ela não recebeu “o texto em seu pleno direito”. Como a narrativa contrariou sua visão de mundo, seu código ético-moral, sua primeira atitude, foi censurá-lo.
O amor como dever ser” é uma narrativa dividida em duas histórias: a de Cátia e Cláudio e a de Cátia e o pai. Na primeira, num dia chuvoso, ela convida Cláudio a sua casa. Havia decidido transar com ele. Cláudio se lança a uma aventura intrépida que o jogaria de vez no mundo adulto. Cátia espera, aguarda em casa o jovem moço que se enche de dedos e não sabe conduzir uma partida ancestral entre um homem e uma mulher. Cláudio não soube decifrar os signos do jogo, da sedução.
Surge, então, a história de Cátia e a o pai. Ela agora é a aventureira intrépida que se lança numa aventura transgressora. Numa sexta-feira, o pai vai busca-la para passarem, juntos, o fim de semana juntos. Logo, o texto nos põe diante da relação incestuosa entre eles. O pai, exímio jogador, saber ler os signos do jogo homem/mulher. Um jogador que, mal recebe a filha, “toca de leve o tecido liso de sua calcinha” (GALLO, 2003, p. 12).
O conto, um exemplo da modernidade do gênero, fecha-se com um final aberto para que nós, leitores, decidamos o destino das personagens:


“Cátia se aproximou do pai e se enroscou em seu braço musculoso. Envolto numa sensação de boa de calor, ele fechou os olhos. Ela, ao contrário, abriu ainda mais os seus. Abriu-se sobre o pai, na noite, na estrada, no bloco veloz, que, de repente, surgiu diante deles...” (GALLO, 2003, p. 16).


Cátia, dois homens: Cláudio e o pai. Entre ela e Cláudio só a sintonia melódica dos nomes. Entre ela e o pai:


“marcas autênticas e mensuráveis do que tinham feito com a coragem que só o amor real e o desejo puro alimentam” (Gallo, 2003, p. 16). Marcas que um dia se “levantariam para censurá-los ou aplaudi-los, marcando uma nova etapa secreta” (GALLO, 2003, p. 16).


Ao ler o conto como um libelo ao incesto, perdemos muito daquilo que a literatura tem a nos oferecer. Lê-lo desta forma é esquecer que no texto literário não apenas a história interessa, mas também a forma como ela é contada. É preciso ler o texto por aquilo que ele nos dá a ler. Não somente em sua significação literal, sua significação de superfície, mas também pelos implícitos, pelos vazios, pela metáfora. O texto literário significa como sinal e como sintoma, ou seja, o texto significa literalmente e metaforicamente (Jouve 2012). Literalmente, O conto nos dá a ler que o amor dever ser como o de Cátia e o pai: incestuoso. Mas e metaforicamente?
O primeiro aspecto para ler este conto como sintoma é entendê-lo no contexto da literatura contemporânea. O texto não se apresenta como uma fábula moral e edificante. Pelo contrário, traz uma marca da literatura moderna e contemporânea: a sua negatividade. Mayrant Gallo dialoga com uma tradição que que passa por Rubem Fonseca, Dalton Trevisan, J. J. Veiga, Machado de Assis, Faulkner, Hemingway, Nabokov. Como diria Bataille: a literatura não é inocente.
O amor entre Cátia e o pai é intenso, carnal, transgressor. Nele as interdições estão suspensas. Literatura é metáfora e jogo. Não podemos ficar apenas na história de superfície. A história do conto mexe com um tabu de nossa cultura, mas o autor não pretendeu dizer que o amor verdadeiro é entre pai e filha. Não é essa a defesa do texto. Em tempos de “amores líquidos”, em que as relações terminam tão rápido quanto começam, em que as relações são tão fágeis, insossas, passageiras, pobres, “O amor como deve ser” nos propõe uma receita de amor, que necessariamente não é durável; mas intensa que tradu-se pelo verso de Vinicius de Moraes: “Que seja eterno enquanto dure”.
Talvez o conto deva ter o título sugerido pela aluna acima, não pela história que conta, mas pela que sugere.“O amor como deve ser” nos aponta, às avessas, que estamos cada vez mais em relações enlatadas, superficiais e insossas.O conto faz parte de um livro de contos que nos oferece uma visão implacável da vida contemporânea. Em outro conto do livro, “A vida num domingo”. O sujeito, para se sentir vivo, arromba um apartamento de três jovens e, além de roubá-los, comete as maiores atrocidades com um cãozinho.
Ler o texto é olhar para as suas nuances, seu ritmos, suas escolhas lexicais, sua arquitetura narrativa, seus personagens, seu espaço, seu enredo. Lê aquém e além da história. Para aquilo que ele diz sem dizer. E, aqui, vale lembrar a vereda de leitura que nos abre Miguel Sanches Neto na orelha do livro O inédito de Kafka (2003): “Há uma preferência pelos seres desajustados. Não há possibilidade de redenção pacífica”. Mas ainda, a contracapa, de autoria indefinida, os personagens “abandonam seus fracassos, a mesquinha ordem cotidiana, e partem para a aventura, como Ícaros de nossos dias”. Essa passagem não explica bem “O amor como deve ser?


Para ler “Iniciantes”, de Raymond Carver, é necessária a mesma disposição para ir além do “acontecimento”. O conto narra o que seria uma conversa trivial de dois casais numa tarde de sábado, regida a gim. Como que por acaso, entram no tema do amor. Um dos personagens, Herb, um cardiologista, resolve desenvolver sua tese sobre o tema. Para ele, “o amor verdadeiro não pode ser nada menos que o amor espiritual”. Herb, divorciado, é casado com Terri, que fora casada com Carl, um sujeito que tentou matá-la e que depois suicidou. Para ela, tudo fruto do amor desesperado.
Quem narra a história é Nicky, um dos presentes a conversa. Talvez, um escritor, que observa para depois, no relato, nos dá sua visão sobre o tema. Nicky costura a narrativa para que, à medida que Herb for expondo sua tese, buscando clarear a definição de amor, o ambiente externo vá escurecendo, como se o sentido da tese e dos próprios personagens estejam se tornando obscuros. A conversa abala-os. Herb e Terri que afirmam amarem um ao outro ainda trazem muitos marcas das relações anteriores. Algo foi modificado após a conversa. Nicky diz: “Tive a sensação de que alguma coisa ia acontecer, era a lentidão das sombras e da luz e, o que quer que fosse aquilo podia me levar junto” (p. 278). Terri desaba no choro. E Laura, companheira de Nicky a consola. Ela olha para ele que pensa: “Foi como se me dissesse: Não se preocupe, vamos superar isso, tudo vai dar certo com a gente, você vai ver. Fique frio” (279).
Nicky então vira-se para a janela para descrever o escurecer. Mas o escurecer não é só externo, natural e um escurecer íntimo, psicológico, subjetivo, dele e dos outros personagens:


[...] Virei-me para a janela. Agora a camada azul do céu havia se rendido e estava escurecendo, como o resto. Mas tinham aparecido umas estrelas. Reconheci Vênus e, mais longe e para o lado, não tão brilhante, porém lá, no horizonte, de modo inequívoco, Marte. O vento havia ficado mais forte. Vi o que ele estava fazendo nos capinzais desertos. De modo insensato, pensei que era muita pena que os Mcginnis não tivessem mais cavalos. Eu queria imaginar cavalos correndo por aqueles campos, na penumbra do crepúsculo, ou apenas parados, sossegados, com a cabeça voltada na direção oposta à cerca. Fiquei junto à janela e esperei. Sabia que tinha de ficar quieto por mais tempo, manter os olhos voltados para lá, para fora da casa, enquanto houvesse alguma coisa para ver (CARVER, 2009, p. 279).


Este é um último parágrafo do texto, lê-lo na sua literariedade; é perder a riqueza de matizes significativas que o conto nos oferece. O primeiro aspecto é comparação: “escurecendo como o resto”. O que seria este resto? Talvez suas certezas, suas verdades, seus sentidos. Em seguida, a frase que expressa o nascimentos de Vênus e Marte. Dois astros celestes nomeados com os nomes da deusa do amor e do deus da guerra, na mitologia greco-romana. O narrador revela logo Vênus e vai delineando, encompridando a frase com elementos intercalados até apresentar Marte, no polo oposto, mas ali, presente. Logo após essa apresentação, o vento fica mais forte. E ele deseja que os anfitriões tivessem cavalos. Mas o que significa cavalos aí? Um estado natural, liberdade? Na simbologia, os componentes animais e irracionais do homem. O estado natural.
Desesperado, tentando reter algo, Nicky continua olhando pela janela para não deixar escapar ainda o que pudesse ser visto. Mas ainda tentar, pelo olhar, capturar algo que ainda tenha sentido.


Dois contos, o mesmo tema. No primeiro, uma receita de amor às avessas, no outro uma tese que pouco esclarece, mas que dilacera certezas. Duas histórias que não se esgotam na superfície das histórias que contam, mas que nos dizem muito pela forma como as conta. Pela metáfora que encerram. Pelas experiências singulares que dramatizam.

segunda-feira, 16 de março de 2015

A devassidão de Jeito de matar lagartas, de Antonio Carlos Viana



O Jeito de matar lagartas (2015, Companhia das Letras) de Antonio Carlos Viana nos arrebata pelos “sentimentos radicais” encenados nos contos: como a consciência da morte, da ruína do corpo ou o erotismo, destituído quase sempre da noção de prazer.  Os personagens  – velhos, sobretudo –, são  marcados pela aguda consciência da passagem do tempo, representada pela cruel decadência dos corpos.

Jeito de matar lagartas revela que a literatura – a autêntica – não é inocente. Ele nos provoca e nos contamina, desnudando a pequena miséria humana. O livro nos põe diante de contos que reverberam a crueldade da vida humana. Ao devassar a vida das personagens das narrativas que o compõe, o livro nos põe diante de nossa própria devassidão. É aí que está o seu valor, pois nos permite tomar consciência de nossa condição.

Diferente dos livros anteriores em que a infância, associada à descoberta tumultuada de algum aspecto da realidade, ganha maior destaque. Jeito de matar lagartas dá ênfase ao mundo adulto,  em alguns textos ao universo da velhice.

Em um mundo marcado pelo “culto solitário do corpo” e pela recusa desesperada recusa de si, o livro de Viana nos deixa diante da certeza de que “cada dia, a cada hora, cada minuto, [é] uma derrota garantida, um passo em direção ao próprio desastre” (Carrière, 2007). 

É o que acontece, por exemplo, em “Dona Katucha” que narra a história de uma velha que tenta fugir da consciência de que seu corpo envelheceu e já não atiça os olhares dos homens. A solução para ela é: “depois de beber, [passar] batom nos lábio e se [ir] trôpega pelos corredores, evitando as vitrines espelhadas”. Ou em “Professor Locarno” que conta a história de um velho professor de quem a família comemora mais um aniversário. No momento da festa, seu desejo era que “o coração afrouxasse de vez e nunca mais ele soubesse o que significava outro dia”. Mas o outro dia chega com a enfermeira que vem trocar sua fralda e que, a ele, parece Carmen Miranda. 

Ainda nessa linha “Florais” com história de Dona Delfina, que, mesmo com a decadência do corpo, ainda vislumbra a possibilidade do prazer, pois “tudo com Alan Delon se desenrolara com tanta naturalidade que ela não se assustou com nada, e só mesmo a Fúcsia da Califórnia para lhe dar aquela coragem de dizer que ainda havia um território em seu corpo que nunca fora explorado”.

Na outra ponta da vida, a da infância, no conto que empresta título ao livro, Jeito de matar lagartas, o menino-narrador faz uma associação entre as formas com que matava as lagartas e o jeito como a tia se contorcia embaixo de seu Laurentino.  Uma precisa associação entre prazer e morte. Em “Muralha da china”, a perspectiva infantil nos coloca diante da cena que dois irmãos, entre eles o narrador, montam para que os pais contem à vizinha a morte de seu esposo e de seu filho. O anúncio se transforma em um baquete desesperado até o momento em que a vizinha intui pelos implícitos e vazios da fala da mãe dos meninos a desgraça que lhe havia acontecido. Em “Cara de Boneca” a perspectiva infantil encena um erotismo cruel. Neste conto, o menino-narrador e seus colegas se dividem entre o ódio a dona Glorita e suas aulas de Camões e as experiências eróticas e o exercício da crueldade com seu Lilá – Cara de boneca. O menino-narrador no clarão de lucidez chega a afirmar que “[...] o mundo se dividia entre os de coração aflito e os de maldade extrema”.

O sentido dessas histórias não estão só nos temas, mas também na linguagem com que são construídas. A linguagem de Antônio Carlos Viana caracteriza por uma economia verbal marcada pelo uso direto das frases, por uma sintaxe enxuta e por uma extrema precisão vocabular. Muitos dos contos já começam buscando nocautear o leitor, como em “Cremação”: “Dona Deusinha sempre teve horror a morto”. 



Jeito de matar lagartas nos põe diante de situações em que os personagens vão despertando para a consciência da presença iminente da morte, da decadência do corpo, para o despertar do erotismo, cada vez mais dissociado da ideia de prazer. Como nos livros anteriores, a epígrafe apresenta a tônica do livro. E o verso de Wislawa Szymborska, sinaliza bem para o que é esse Jeito de matar lagartas:  “Não há devassidão maior que o pensamento”.     

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Um poema para tentar lembrar como se faz


Não sei ser poeta


Não sei ser poeta.
Às vezes, um menino travesso
atravessa minha fala no verso.

Às vezes, lembro das feras
escondidas nas frestas do ego
ou nos cantos da casa velha.

Às vezes, os mortos das fotografias
de riso irônico e sacana
discursam sobra a eternidade vazia.

Às vezes, a menina no quintal
desentranha das palavras, das coisas, dos bichos
a origem perdida.

Às vezes, é só o susto.

sábado, 13 de julho de 2013

Minhas leituras






O inverno de nossa desesperança


Acho que foi em Django Livre, o mais recente filme de Quentin Tarantino que ouvi a máxima: “Quem suja a mão, suja duas vezes”. Se não foi aí que a vi primeiro, foi na sucinta e lúcida resenha de Mayrant Gallo de O Invasor, de Marçal Aquino. A máxima pode ser uma chave de leitura para o belo romance de John Steinbeck, O inverno da nossa esperança – L&PM, 2011, com o qual o autor é agraciado como prêmio Nobel. A narrativa apresenta-nos uma narrativa contudente do american Way of life. O livro relata a queda moral de Ethan Hawley em busca de dinheiro e prestígio na própria família e na sociedade.

Alain FinkielKraut, em Um coração inteligente (2011), afirma que a literatura ocidental nasce de uma querela. Mas – Finkielkraut citando Kundera - “Homero não teve ideia de se perguntar se, depois de numerosas brigas corpoa a corpo, Aquiles ou Ajax conservavam todos os dentes”. Esses heróis encarnavam virtudes. A prosa ocidental moderna, no entanto, insere na narrativa “os destinos ordinários e o ordinário de todos os destinos, as vidas modestas e o caráter cotidiano da vida nascem da insignificância” .
O inverno da nossa esperança focaliza a vida de um homem comum, espirituoso e alegre, mas, ao mesmo tempo, cheio de sentimentos, angústias e desejos; sobretudo, um homem cheio de dilemas éticos e morais. Ethan Hamley vive na fictícia cidadezinha de New Bayton, trabalha como empregado no mercado que perteceu a sua família e que ele teve que vender a um italiano por conta das dívidas. Ethan carrega um passado nobre pois é descendente de orgulhosos capitães do mar da nova Inglaterra. De nobre a reles empregado de marcearia.

Ethan é casado com Mary uma mulher insatisfeita e sedenta por riqueza e tem com ela tem dois filhos adolescentes também problemáticos e descontentes, pois desejam confortos materiais que o pai não pode fornecer. Em uma das passagens do livro, a filha pergunta ao pai: “Papai, quando vamos ficar ricos?” Ao que Ethan responde: Mas eu não lhe disse o que sei: ‘vamos ficar ricos logo, e você que lida mal com a pobreza, vai lidar mal com a riqueza do mesmo jeito’. E é verdade. Na pobreza, ela é invejosa. Na riqueza, pode ficar esnobe. O dinheiro não transforma a doença, apenas os sintomas”.

“Quem suja as mãos, suja duas vezes” . A primeira vez Ethan suja ao denunciar seu patrão, um italiano ilegal, ao serviço de imigração. Isso faz com que Ethan retome o mercado da família. A outra é quando ele empresta mil dólares ao amigo e Alcoolatra Danny, prevendo a morte do amigo, para ficar com sua propriedade, onde cogitavan a construção de um aeroporto.
A máxima também nos serve para compreender a estrutura narrativa: o foco narrativo é dividido entre o narrador em 3º e o narrador em primeira com o próprio Etahn contando sus história. Neste caso, não bastou a ele, destituir-se de todos os princípios éticos em suas ações; mas para chafundar-se ainda mais na lama, contou a própria história.

Mas antes que o leitor queira, por este texto, julgar o personagem, digo-lhe que Ethan é tão humano quanto cada um de nós. Ethan representa os dilemas morais vividos por cada um de nós em uma sociedade que nos cobra de forma dura e cruel um lugar ao sol. Todo homem tem seu preço. Ethan teve o dele. Qual o nosso?

Entre as várias definições de clássico de Calvino, encontramos a seguinte: Um clássico é um livro que nunca terminou aquilo que tinha para dizer”. O inverno de nossa esperança foi publicado em 1961, há 52 anos, mas sua verdade nua e crua sob os dilemas humanos continuam atuais. O romance continua nos dizendo verdades cruéis. Verdades sobre nos mesmos.

Em cada passante da multidão anônima, esconde-se um Ethan Hawley.

O comitê do Nobel afirmou que com O inverno da nossa desesperança John Steinbeck havia reconquistado sua posição como arauto da verdade. Um verdade que permance atual e que cala em cada um de nós. A queda ( lembremos Camus) de Ethan Hamley é também a nossa queda. Afinal, como nos lembra Rilke, “a lei geral é cair”.


Paulo André Correia. Escreve nas raras horas vagas.



segunda-feira, 1 de julho de 2013

Minhas leituras








O jogo de dados d’Os encantos do sol


Os Encantos do sol (2013), primeiro romance de Mayrant Gallo, exímio contista, nos convida para o jogo ficcional, à moda de Jogo de Amarelinha de Cortázar ou das ficções de Jorge Luís Borges. O autor adverte-nos na nota introdutória do livro que o escreveu como entretenimento, como jogo imaginativo, com prazer. Em tempos em que a literatura é vista como veículo de legitimação ou inclusão de vozes marginalizadas, reafirmar a literatura como o espaço do lúdico, do jogo, do saber pelo sabor do texto revela que este campo continua aberto e transgressor.
Gallo nos convida para um jogo de incertezas. Os encantos do sol é um romance-mosaico, aberto a muitas formas do gênero romanesco. O romance se abre como múltiplas possibilidades de leitura: como uma história de amor, como uma história de memórias, como uma história fantástica, como uma história policial do gênero noir, como uma história de ficção científica; enfim como uma história da própria história. A seu modo e originalidade, Mayrant cria um romance-labirinto, neles vários jardins se bifurcam e a nós leitores resta-nos criar nossas asas de cera e nos expormos aos encantos do sol.
Além disso, o romance nos apresenta um mosaico de citações de obras literárias e cinematográficas. A narrativa resgata, sob a forma de fantasma, como em Hamlet, o personagem machadiano Bentinho, que geralmente aparece como o grande acusador que expõe a Dino Endre suas derrotas e algumas poucas vitórias. Traz-nos ainda o conto “As palavras”, da futura amante de Endre. Ainda à moda machadiana, o relato exibe sua própria teoria e uma possível crítica feita num possível verbete do autor.
[...] Prefiro acreditar em consciência, pois, mesmo antes de chegar ao final, percebo que esta história tem uma invulgar diferença em ralação a todas as outras que, nos últimos anos, encerrei nas amarras do romance ou da novela: ela nasceu da vida e para a vida se destina. Se há uma característica que bem define o romance, é a sua matriz autobiográfica, ainda que remota. Quanto à novela, é dos gêneros literários o que melhor exprime a existência miúda, o cotidiano mais corriqueiro, os costumes mais triviais, as sequências inevitáveis do “estar no mundo”, as sensações perdidas – ou que vão se perder, se não assimiladas pelas palavras – , os insensatos embates humanos, as dúvidas e sonhos terrestres. Sendo assim tentarei mesclar os dois gêneros. Não me interessa o que dirão os críticos [...].
Quem nos leva a essa labirinto é Dino Endre, um escritor incumbido de escrever um roteiro de uma Grafic Novel , talvez toda a história do livro seja a história da construção dessa história. O fio que nos conduz a tantas outras histórias anunciadas é o romance entre Dino Endre e Polly, amante de professor amigo do escritor, Victor. Em meio a esta história, conhecemos o casamento falido de Dino e Virginia, que se separa de Dino para ficar com Andrina, que deixa Virgínia para ficar com Dino, após esta propor a Dino que engravide Andrina para que elas possam criar um filho, e, mais tarde, as duas voltam a se juntar. Ainda temos o caso de Dino com Georgia, uma mulher gorda, espécie de agente literário, que recebe o roteiro e paga a Dino pelo trabalho. Como um folhetim às avessas, a narrativa nos apresenta um monte de peripécias amorosas e sexuais: traições, troca de casais, sexo a três; como se cada personagem fosse se perdendo nos labirintos das outras, como se nada pudesse se fixar.
Em meio a essas peripécias, como negação e afirmação de tudo isso, temos o romance de Endre e Polly, que tem como espaço bucólico a praia em Lus, uma imaginária cidade praieira do sul da Bahia. A história em Lus divide-se em dois momentos. No primeiro, Endre vislumbra, como o poeta diante da máquina do mundo, o esplendor de Polly:
Foram as melhores núpcias da minha vida. Seu corpo jovem era ao mesmo tempo um prazer e um desafio. Parecia insaciável. E seu entusiasmo por sexo compensava sua relativa inexperiência na variação de posições e desejos. Cheguei a crer que a diferença de idade que nos separava era, em suma, a ideal para todo homem e toda a mulher. Deixava-nos ajustados. Foi como se meu desejo encontrasse seu espelho no vigor e na volúpia que a alimentavam. Se ela me queria, eu estava pronto. Se eu me aprontava, ela logo se deixava animar, naturalmente, numa simetria até então impossível, irreal. Compreendi o porquê de Victor tanto se esforçar por manter seu apartamento em Nazaré sempre aberto a suas alunas malsucedidas nas provas. Elas lhe insuflam vida. Eram como pedaços de sonhos, de utopias, a substância que o mantinha de pé (p. 44).
Depois desse momento, eles compartilham por certo tempo a vida, os corpos. E, como geralmente acontece, separam-se para se encontrarem mais tarde na mesma Lus. Mas este reencontro acontece num clima de romance policial noir. Ao separarem-se, Dino engravida Andrina e passa a conviver com ela. Polly passa a viver com Victor, seu antigo amante. Polly some, e Dino e Victor, como dóis “detetives selvagens”, tentam descobrir seu paradeiro. Depois de voltar sem resultado, Endre pensa que Polly só pode esta no sítio bucólico em que se refugiaram da primeira vez. O reencontro é marcado por uma alegria recíproca:
Polly tirou os óculos e me olhou. Sua alegria foi tão ampla quanto a de uma criança que revê seu brinquedo perdido, que, durante muito tempo, só pudera resgatar em sonho. Naquela tarde, nos amamos como seu eu tivesse saído da cadeia, e por muito tempo ela houvesse me esperado... Do parapeito da janela, incendiado de sol, Herberto nos observava (p. 102).
Chega o inverno e Polly convence Endre a ficar no hotel, como espécie de caseiros de um amigo e possível caso de Polly. Numa referência explícita ao Iluminado, de Kubrick, lá vão viver experiências extremas. Tornam-se cúmplices de um estranho contrabando. Vivem relações eróticas com um casal da pequena Lus, Roberto e Liliane. Descobrem que Roberto foi vítima de um possível assassinato. Fogem. Em meio à fuga, Polly joga o estranho objeto do contrabando no rio e some, deixando Endre sozinho no ônibus para o resto de sua vida. No suposto lugar para onde Polly foge, um hotel é construído e logo depois destruído por um incêndio.
Ao fim da narrativa, as veredas tornam a se bifurcar. O narrador nos revela uma história dentro da história, como se a narrativa se configurasse uma Matrioshka. Mas toda a narrativa é uma busca de Dino Endre de organizar o vivido, uma forma de superar o passado, como ele mesmo, ou um autor implícito que vinha conduzindo os passos de Endre, afirma no final do romance: “Agora você sabem. Todos nós sabemos. Ainda luto para esquecê-la. Meu céu humano”.
Não sei se me tornei o leitor que o autor Mayrant Gallo esperava ter na nota do livro. Mas me diverti jogando com o texto, tentando montar seu quebra-cabeça móvel, que a todo momento deslocava os espaços das peças. Li-o, ao meu modo, ao influxo da “imaginação, do prazer e do acaso”. Com esta narrativa, Mayrant reforça o poder da literatura de estar para além das injunções históricas. No momento em que apregoam que a literatura deve dar voz aos desvalidos, Mayrant revela-a como espaço do jogo, do lúdico e do homem em todas as suas facetas.
Paulo André Correia. Professor substituto da UNEB e da Rede Estadual de Ensino.