sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Poética

Às vezes escuto vozes antigas
que falam da música esquecida.
Lápis e papel à mão, cato suas cifras.

Às vezes, soam num leve ritmo;
outras, trovejam abismos
ou rabiscam um retrato sobre cinzas.

Feito cego, assim sigo
dançando entre abismos
ou construindo monumentos em ruínas.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Leituras no pânico


Inexplicavelmente, há mais ou menos dois meses, vendo sofrendo de uma ansiedade patológica e de transtornos do pânico. Apavora-me a idéia de que a qualquer instante venha a ter um infarto e abandonar esta casca que me veste. Este medo da indesejada das gentes é incontrolável, e vem minando as minhas possibilidades criativas. Não sei de onde vem este pânico, sem que estou aqui de passagem e mais um dia que passa é menos um dos que virão. Meu destino está selado em alguma esquina, carro, ou mesmo em casa. Nasci, todos nascemos, condenado.
Nos intervalos em que tinha alguma disposição para a leitura e para o trabalho, fui fazendo algumas leituras que agudizavam minha dor ao mesmo tempo em que me apontavam uma atitude estóica diante da vida e do mundo.
A primeira dessas leituras foi a do livro do americano Paul Bowles, O céu que nos protege, o livro narra a saga descantada de três americanos - Port, Kit, sua mulher, e Turner, um amigo, pelo deserto do Saara, à procura de um lugar livre dos horrores da Segunda Guerra. A grande questão do livro talvez seja nossa "orfandade" sob esse céu infinito e insondável. Como nos revela algumas imagens do céu escaldante do Saara: "Durante o dia não era apenas o sol que a perseguia do alto do firmamento - o céu inteiro era como uma cúpula metálica, embranquecida de calor" (p. 254).
Sob esse céu que nos protege, Port entrega os pontos, ficando no meio caminho (todos não ficamos?), Kit segue a jornada que a fazbeirar os abismos humanos da insanidade e da visceralidade. Turner parece ser único não muito afetado pelo deserto.
Outra leitura foi a do O ovo de ouro, de Tim Krabbé, uma terrível história de amor de um casal de holandeses, Rex e Saskia. Uma metáfora bela e terrível sobre o amor. Rex e Saskia são enredados numa macabra teia amorosa, armada pelo destino que deixa suas pistas através do sonho do ovo de ouro.
A terceira, estou começando. Trata-se do Dário íntimo, de Kafka. Como não se assombrar e deleitar com frases assim: "Durmo, desperto, torno a dormir, torno a despertar, miserável existência" (p.17).
[...] Sou de pedra, sou a minha própria lápide tumular, sem qualquer fresta para a dúvida nem para fé, para o amor, nem para a repulsa, para a audácia nem para a angústia, em partiuclar ou em caráter geral; apenas una tênue esperança vive, porém à maneira das inscrições nos túmulos" (p. 28).

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Epitáfio

Quando não mais seja memória,
As folhas de rosto de alguns livros
Terão grafadas teu nome.
E serás só isso:
Um nome grafado num livro
Que as horas, os anos
também apagarão.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Lembranças

Há dias em que fatos acontecem que parecem já terem acontecido. Dias que seguem cotidianamente, em que você sabe o que tem que fazer como pegar um resultado de seleção para professor e você vê este fato como uma repetição de algo que já aconteceu. Estranha coincidência que você esquece no resto do dia. Outro dia você vê alguém e pensa já tê-lo encontrado nas mesmas circunstâncias. E você nunca o viu. Numa manhã você acorda e pensa já ter acordado nesta mesma manhã: o sol, o dia, os dentes, a creme dental são os mesmos. Você se pergunta se já vivera a sua morte? Você não sabe. Outro dia qualquer você vai à escola – as aulas o esperam. Caminha na mesma rua escura, dois homens acompanham-no. E você sabe o que vai acontecer.

sábado, 29 de agosto de 2009

De mar e gatos

De que adianta falar do mar para os gatos,
o mar está em mim.

Os gatos só sabem do que lhes foi ensinado à espécie no início dos tempos.

Somos nós que navegamos por este mar
absoluto, de águas e palavras e sal
das estátuas carcomidas.

Os gatos não sabem do mar,
nem desse brumoso navegar.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

À noite, todos os gatos são pardos

Não lembro quando começamos aquilo. Ninguém acendia a luz se o outro estivesse deitado. Às vezes, eu vinha primeiro, deitava-me e esperava. Ela chegava pouco depois, ainda molhada do banho. Via a toalha escorregar sobre seu corpo úmido sob a penumbra do quarto. Pegava os potes de cremes e hidratantes um após o outro. Gostava de vê-la despejando-os nas mãos e deslizando pelo corpo: os seios fartos, o ventre redondo, as coxas grossas. Depois jogava-se sob a coberta roçando o corpo no meu. Eu já impaciente, lançava-me à cartografia de seu corpo. E trepávamos adiando o silêncio diáfano da noite.
E o dia acordava com uma suave fragrância, presente de seu último aniversário. Ela, com os cabelos úmidos, parecia prolongar a noite anterior. À mesa, o café nos esperava para as pequenas simetrias: os pães, o suco, por fim o café, que bebíamos prolongando a despedida.
“Também te amo”, eu repetia já pegando minha bolsa para ir às aulas.
Quando não assim, ela vinha primeiro. Eu ficava escrevendo alguma coisa ou corrigindo atividades de alunos. Estendia-me nestas tarefas até a exaustão. E então ia deitar. Abria a porta. Deixava o copo com a prótese dentária sobre a cômoda e, num roteiro já definido na escuridão do quarto, tomava meu lugar no lado esquerdo da cama. E desabava no sono, só despertando às seis, com o som estridente do velho rádio relógio. O café era menos demorado e umbom dia seco me jogava na rua.
Nestes dias, prolongava minhas aulas. Falava duas horas seguidas sobre “Sôbolos rios que vão”. A maior parte da sala dormia. Camões já tinha ido às pampas há muito tempo. Ou então, analisava uma lira de Gonzaga. Brincava com a turma, dizia que o poema era um convite clássico para uma trepada. E que também era uma reflexão de como “aproveitar-se o tempo, antes que faça o estrago de roubar o corpo as forças, e ao semblante, a graça”. alguns riam, mas a maior parte ainda preferia um convite menos cult. A sirene tocava adiando o assunto para a próxima aula.
Em casa, ela esperava a senha para abrir um sorriso discreto. Havia uma pequena expectativa que nos fazia pisar em ovos. Umas provas a corrigir a levava para o quarto mais cedo sem nem dizer um “boa noite, querido”. Nunca discutíamos. Qualquer sinal de uma irritação o outro cedia, e havia aquela norma que os anos de uma vida a dois nos foi impondo. E que seguíamos a risca.
Mas há fissuras do real: um cego num ponto de ônibus, uma fuga de galinha, um risco de luz num quarto, que nos desperta e põe a fogo nossos códigos. Aconteceu num desses dias em que fui para o quarto primeiro. Ela chegou em sua toalha buscando os potes de cremes e hidratantes, deslizando-os em sua pele macia. Quando abria um dos potes, a tampa rolou de suas mãos e postou-se num canto escuro do quarto. Ela não o deixaria aberto. Sempre reclamava quando eu deixava o desodorante mal tampado, a toalha sobre a cama ou um sapato fora da caixa. Sim, senti que ela iria acender a lâmpada. Esperei.
Sua mão deslizou pela parede buscando o interruptor. Ouvi o clique. Ela nua em minha frente. Olhou-me e se agachou para pegar a toalha. Olhei-a e vi: seus seios pareciam se despregar do corpo, sua barriga parecia ganhar uma forma amorfa e de suas coxas grossas despencavam suas carnes flácidas. Ela também deve ter notado minha falência. Em seus olhos havia espanto.
Outro clique. O pote fechado voltara a seu lugar geometricamente delineado na cômoda. E ela deitou-se buscando seu lado da cama. Nesta noite não trepamos. A madrugada toda se encheu de grilos e gritos distantes. E de dentro da noite procurei a ave noturna, mas só encontrei minha própria voz martelando um noturno de Quintana. Ao meu lado podia sentir seus olhos abertos, procurando, na implacável solidão noturna, algum diamante perdido.
Mas havia a aurora e havia Clarice. E, à noite, eu fui o primeiro a entrar para o quarto.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Poema

Na gaveta de achados e perdidos
guardei versos de faca
entre a capa e a contracapa de um livro.

Tecido de memória e mapas,
rasurado entre a cidade
e os rasgos da infância.

Não sei se havia segredos.
A chave joguei-a ao vento
entre mitos e eras.

Mas havia a menina
esquecida do tempo e do rito
ventre aberto vomitando borboletas.