segunda-feira, 18 de julho de 2011
Poema
Na casa vazia
No quarto vazio
O espelho
divide a vida
Que notícias nos traz do lado de lá?
O espelho é impassível
Só nos diz do pânico de cá.
domingo, 1 de maio de 2011
Um poema
Essa coisa
Essa coisa áspera
Essa coisa crespa
Essa coisa ácida
Essa coisa vesga
Essa coisa crassa
Essa coisa ego
Essa coisa vaga
Essa coisa sexo
Essa coisa sal
Essa coisa ferro
Essa coisa muda
Essa coisa verbo
Essa coisa que me excede
Numa sexta cinza
Essa coisa não diz quem sou
domingo, 27 de março de 2011
Bosques por onde passeio
O Modus Operandi de uma rica alquimia poética
Georgio Rios é um fatalizado. Essa confirmação me veio com a leitura do seu Modus operandi (2010). Ele desencrava imagens e as enforma na música do verso para cravá-las outra vez no leitor. Ao folhear o livro em busca do inesperado, deparei-me com “Labirinto”, poema que abre a coletânea. O poema revela o trabalho alquímico de Georgio de transformar tudo em música e metáfora:
A humanidade é um vasto jardim,
com suas flores de hastes decepadas.
Tanger as labaredas
e
vagar por
este vasto jardim
Digladiando o imenso
labirinto...
E suas humanas flores
decepadas (p. 17).
Outro poema ferido e que fere com imortal beleza é “Metáfora”. Nele o “fingidor” revela-se uma andarilho numa estrada aberta entre os dedos: Sou o que sou// Sou cais/andarilho de destino comum//Sem tréguas/nem datas//Numa estrada aberta entre meu dedos”. A imagem desse poema envolve de frescor a velha metáfora do homem e do poeta com um caminhante numa estrada que vai do nada ao nada.
“Verdades” nos fere com a imagem do homem em busca do inefável:
Gosto de tudo que não conheço:
Das cores que não sei
Das fotos que não vi
Dos livros que nunca li
Das coisas que não sei
Dos versos que nunca escrevi (p. 22).
Enumeraria outros tantos que me tocaram enquanto leitor. Isso só revela a forma de Georgio de desentranhar a poesia das situações mais cotidianas como revelam os poemas “Hoje é domingo”, “Sábado”, “Meu quarto”, “O retrato dos pássaros na tarde” etc.
Modus operandi, apesar de minha inquietação com o título, revela o modo de operar do poeta Georgios Rios: a alquimia poética que transforma até a escatologia contemporânea em poema como em “Jardins Assustadores”:
As cores lúcidas
em gris transformadas
Cores pálidas
pousando sobre o rosto do homem
ser mambembe
Estamos todos com tinta no rosto
nesta história
Rostos lavados
na chuva suja
E o medo, bailando,
sob o olhar sinistro do fuzil
E estamos andando...
E sorrindo sem saber,
nesta caminhada errante
para o fim das história. (p. 46)
É isso, Georgio Rios é um fatalizado pela expressão poética. A poesia o escolheu para encantar o mundo, para promover o encontro do homem consigo mesmo.
domingo, 27 de fevereiro de 2011
lantejoulas, paetês e purpurina
Carnaval
vesti a velha roupa de arlequim
e saí pelos mil labirintos da rua
em busca da face tua
a lua, velha prostituta
incitava os lascivos a luta
e Arlequim não encontrava Colombina
menina de véus e fugas
tua ausência fere minha fantasia
e a avenida é puro frenesi
De Arlequim, sigo sozinho
para a quarta-feira de cinzas.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Poema
Monte das oliveiras
Domingo.
Estou só na noite vasta:
Pai afasta de mim este cálice!
Grito perdido na madrugada.
A noite é longa e cheia de pregos.
Sigo só. No Monte das Oliveiras.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Ficção científica ou somente boa ficção
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
FAHRENHEIT, O FIM
Foram três anos de viagens no tempo e no espaço, através de seis portais: Solaris, Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit.Dezenas de autores e contos que mostram que a science fiction brasileira tem futuro, apesar do desprezo dos autores (ou "altores") que supostamente praticam "alta literatura", seus leitores preconceituosos e seus críticos de plantão, sempre vigilantes contra a ampliação do cânone. O que eles não sabem é que Stanislaw Lem e Ray Bradbury, por exemplo, integram o cânone de seus respectivos países. Quem já leu Solaris e As crônicas marcianas sabe por quê.
UMA GRANDE QUEIMA DE LIVROS E REVISTAS FOI PROGRAMADA PARA O FIM DO EVENTO! Com o aval do Nelson de Oliveira, mentor do projeto Portal, que inicialmente disse: "Não, de jeito algum. Eu também gosto muito do Ray Bradbury. Mas, no final do evento, tacar fogo na biblioteca, NÃO! Sem chance, gente. Que ideia!"
Mas, depois: "Tá bom, vocês venceram... Eu levo os coquetéis molotovs..."
domingo, 14 de novembro de 2010
Porque hoje é domingo
Porque hoje é domingo
e não há paz em mim
Sim, porque hoje é domingo
e esqueci a praia e o segredo
Porque hoje é domingo
e o shopping me solicita
Porque hoje é domingo
e a família me espera pra diversão
Porque hoje é domingo
e acordei meio esquisito
Porque hoje é domingo
e há tempos não vou à missa
Porque hoje é domingo
dia de descida de Sísifo
Porque hoje é domingo
cantar é dissolução.