domingo, 2 de fevereiro de 2014

Um poema para tentar lembrar como se faz


Não sei ser poeta


Não sei ser poeta.
Às vezes, um menino travesso
atravessa minha fala no verso.

Às vezes, lembro das feras
escondidas nas frestas do ego
ou nos cantos da casa velha.

Às vezes, os mortos das fotografias
de riso irônico e sacana
discursam sobra a eternidade vazia.

Às vezes, a menina no quintal
desentranha das palavras, das coisas, dos bichos
a origem perdida.

Às vezes, é só o susto.

sábado, 13 de julho de 2013

Minhas leituras






O inverno de nossa desesperança


Acho que foi em Django Livre, o mais recente filme de Quentin Tarantino que ouvi a máxima: “Quem suja a mão, suja duas vezes”. Se não foi aí que a vi primeiro, foi na sucinta e lúcida resenha de Mayrant Gallo de O Invasor, de Marçal Aquino. A máxima pode ser uma chave de leitura para o belo romance de John Steinbeck, O inverno da nossa esperança – L&PM, 2011, com o qual o autor é agraciado como prêmio Nobel. A narrativa apresenta-nos uma narrativa contudente do american Way of life. O livro relata a queda moral de Ethan Hawley em busca de dinheiro e prestígio na própria família e na sociedade.

Alain FinkielKraut, em Um coração inteligente (2011), afirma que a literatura ocidental nasce de uma querela. Mas – Finkielkraut citando Kundera - “Homero não teve ideia de se perguntar se, depois de numerosas brigas corpoa a corpo, Aquiles ou Ajax conservavam todos os dentes”. Esses heróis encarnavam virtudes. A prosa ocidental moderna, no entanto, insere na narrativa “os destinos ordinários e o ordinário de todos os destinos, as vidas modestas e o caráter cotidiano da vida nascem da insignificância” .
O inverno da nossa esperança focaliza a vida de um homem comum, espirituoso e alegre, mas, ao mesmo tempo, cheio de sentimentos, angústias e desejos; sobretudo, um homem cheio de dilemas éticos e morais. Ethan Hamley vive na fictícia cidadezinha de New Bayton, trabalha como empregado no mercado que perteceu a sua família e que ele teve que vender a um italiano por conta das dívidas. Ethan carrega um passado nobre pois é descendente de orgulhosos capitães do mar da nova Inglaterra. De nobre a reles empregado de marcearia.

Ethan é casado com Mary uma mulher insatisfeita e sedenta por riqueza e tem com ela tem dois filhos adolescentes também problemáticos e descontentes, pois desejam confortos materiais que o pai não pode fornecer. Em uma das passagens do livro, a filha pergunta ao pai: “Papai, quando vamos ficar ricos?” Ao que Ethan responde: Mas eu não lhe disse o que sei: ‘vamos ficar ricos logo, e você que lida mal com a pobreza, vai lidar mal com a riqueza do mesmo jeito’. E é verdade. Na pobreza, ela é invejosa. Na riqueza, pode ficar esnobe. O dinheiro não transforma a doença, apenas os sintomas”.

“Quem suja as mãos, suja duas vezes” . A primeira vez Ethan suja ao denunciar seu patrão, um italiano ilegal, ao serviço de imigração. Isso faz com que Ethan retome o mercado da família. A outra é quando ele empresta mil dólares ao amigo e Alcoolatra Danny, prevendo a morte do amigo, para ficar com sua propriedade, onde cogitavan a construção de um aeroporto.
A máxima também nos serve para compreender a estrutura narrativa: o foco narrativo é dividido entre o narrador em 3º e o narrador em primeira com o próprio Etahn contando sus história. Neste caso, não bastou a ele, destituir-se de todos os princípios éticos em suas ações; mas para chafundar-se ainda mais na lama, contou a própria história.

Mas antes que o leitor queira, por este texto, julgar o personagem, digo-lhe que Ethan é tão humano quanto cada um de nós. Ethan representa os dilemas morais vividos por cada um de nós em uma sociedade que nos cobra de forma dura e cruel um lugar ao sol. Todo homem tem seu preço. Ethan teve o dele. Qual o nosso?

Entre as várias definições de clássico de Calvino, encontramos a seguinte: Um clássico é um livro que nunca terminou aquilo que tinha para dizer”. O inverno de nossa esperança foi publicado em 1961, há 52 anos, mas sua verdade nua e crua sob os dilemas humanos continuam atuais. O romance continua nos dizendo verdades cruéis. Verdades sobre nos mesmos.

Em cada passante da multidão anônima, esconde-se um Ethan Hawley.

O comitê do Nobel afirmou que com O inverno da nossa desesperança John Steinbeck havia reconquistado sua posição como arauto da verdade. Um verdade que permance atual e que cala em cada um de nós. A queda ( lembremos Camus) de Ethan Hamley é também a nossa queda. Afinal, como nos lembra Rilke, “a lei geral é cair”.


Paulo André Correia. Escreve nas raras horas vagas.



segunda-feira, 1 de julho de 2013

Minhas leituras








O jogo de dados d’Os encantos do sol


Os Encantos do sol (2013), primeiro romance de Mayrant Gallo, exímio contista, nos convida para o jogo ficcional, à moda de Jogo de Amarelinha de Cortázar ou das ficções de Jorge Luís Borges. O autor adverte-nos na nota introdutória do livro que o escreveu como entretenimento, como jogo imaginativo, com prazer. Em tempos em que a literatura é vista como veículo de legitimação ou inclusão de vozes marginalizadas, reafirmar a literatura como o espaço do lúdico, do jogo, do saber pelo sabor do texto revela que este campo continua aberto e transgressor.
Gallo nos convida para um jogo de incertezas. Os encantos do sol é um romance-mosaico, aberto a muitas formas do gênero romanesco. O romance se abre como múltiplas possibilidades de leitura: como uma história de amor, como uma história de memórias, como uma história fantástica, como uma história policial do gênero noir, como uma história de ficção científica; enfim como uma história da própria história. A seu modo e originalidade, Mayrant cria um romance-labirinto, neles vários jardins se bifurcam e a nós leitores resta-nos criar nossas asas de cera e nos expormos aos encantos do sol.
Além disso, o romance nos apresenta um mosaico de citações de obras literárias e cinematográficas. A narrativa resgata, sob a forma de fantasma, como em Hamlet, o personagem machadiano Bentinho, que geralmente aparece como o grande acusador que expõe a Dino Endre suas derrotas e algumas poucas vitórias. Traz-nos ainda o conto “As palavras”, da futura amante de Endre. Ainda à moda machadiana, o relato exibe sua própria teoria e uma possível crítica feita num possível verbete do autor.
[...] Prefiro acreditar em consciência, pois, mesmo antes de chegar ao final, percebo que esta história tem uma invulgar diferença em ralação a todas as outras que, nos últimos anos, encerrei nas amarras do romance ou da novela: ela nasceu da vida e para a vida se destina. Se há uma característica que bem define o romance, é a sua matriz autobiográfica, ainda que remota. Quanto à novela, é dos gêneros literários o que melhor exprime a existência miúda, o cotidiano mais corriqueiro, os costumes mais triviais, as sequências inevitáveis do “estar no mundo”, as sensações perdidas – ou que vão se perder, se não assimiladas pelas palavras – , os insensatos embates humanos, as dúvidas e sonhos terrestres. Sendo assim tentarei mesclar os dois gêneros. Não me interessa o que dirão os críticos [...].
Quem nos leva a essa labirinto é Dino Endre, um escritor incumbido de escrever um roteiro de uma Grafic Novel , talvez toda a história do livro seja a história da construção dessa história. O fio que nos conduz a tantas outras histórias anunciadas é o romance entre Dino Endre e Polly, amante de professor amigo do escritor, Victor. Em meio a esta história, conhecemos o casamento falido de Dino e Virginia, que se separa de Dino para ficar com Andrina, que deixa Virgínia para ficar com Dino, após esta propor a Dino que engravide Andrina para que elas possam criar um filho, e, mais tarde, as duas voltam a se juntar. Ainda temos o caso de Dino com Georgia, uma mulher gorda, espécie de agente literário, que recebe o roteiro e paga a Dino pelo trabalho. Como um folhetim às avessas, a narrativa nos apresenta um monte de peripécias amorosas e sexuais: traições, troca de casais, sexo a três; como se cada personagem fosse se perdendo nos labirintos das outras, como se nada pudesse se fixar.
Em meio a essas peripécias, como negação e afirmação de tudo isso, temos o romance de Endre e Polly, que tem como espaço bucólico a praia em Lus, uma imaginária cidade praieira do sul da Bahia. A história em Lus divide-se em dois momentos. No primeiro, Endre vislumbra, como o poeta diante da máquina do mundo, o esplendor de Polly:
Foram as melhores núpcias da minha vida. Seu corpo jovem era ao mesmo tempo um prazer e um desafio. Parecia insaciável. E seu entusiasmo por sexo compensava sua relativa inexperiência na variação de posições e desejos. Cheguei a crer que a diferença de idade que nos separava era, em suma, a ideal para todo homem e toda a mulher. Deixava-nos ajustados. Foi como se meu desejo encontrasse seu espelho no vigor e na volúpia que a alimentavam. Se ela me queria, eu estava pronto. Se eu me aprontava, ela logo se deixava animar, naturalmente, numa simetria até então impossível, irreal. Compreendi o porquê de Victor tanto se esforçar por manter seu apartamento em Nazaré sempre aberto a suas alunas malsucedidas nas provas. Elas lhe insuflam vida. Eram como pedaços de sonhos, de utopias, a substância que o mantinha de pé (p. 44).
Depois desse momento, eles compartilham por certo tempo a vida, os corpos. E, como geralmente acontece, separam-se para se encontrarem mais tarde na mesma Lus. Mas este reencontro acontece num clima de romance policial noir. Ao separarem-se, Dino engravida Andrina e passa a conviver com ela. Polly passa a viver com Victor, seu antigo amante. Polly some, e Dino e Victor, como dóis “detetives selvagens”, tentam descobrir seu paradeiro. Depois de voltar sem resultado, Endre pensa que Polly só pode esta no sítio bucólico em que se refugiaram da primeira vez. O reencontro é marcado por uma alegria recíproca:
Polly tirou os óculos e me olhou. Sua alegria foi tão ampla quanto a de uma criança que revê seu brinquedo perdido, que, durante muito tempo, só pudera resgatar em sonho. Naquela tarde, nos amamos como seu eu tivesse saído da cadeia, e por muito tempo ela houvesse me esperado... Do parapeito da janela, incendiado de sol, Herberto nos observava (p. 102).
Chega o inverno e Polly convence Endre a ficar no hotel, como espécie de caseiros de um amigo e possível caso de Polly. Numa referência explícita ao Iluminado, de Kubrick, lá vão viver experiências extremas. Tornam-se cúmplices de um estranho contrabando. Vivem relações eróticas com um casal da pequena Lus, Roberto e Liliane. Descobrem que Roberto foi vítima de um possível assassinato. Fogem. Em meio à fuga, Polly joga o estranho objeto do contrabando no rio e some, deixando Endre sozinho no ônibus para o resto de sua vida. No suposto lugar para onde Polly foge, um hotel é construído e logo depois destruído por um incêndio.
Ao fim da narrativa, as veredas tornam a se bifurcar. O narrador nos revela uma história dentro da história, como se a narrativa se configurasse uma Matrioshka. Mas toda a narrativa é uma busca de Dino Endre de organizar o vivido, uma forma de superar o passado, como ele mesmo, ou um autor implícito que vinha conduzindo os passos de Endre, afirma no final do romance: “Agora você sabem. Todos nós sabemos. Ainda luto para esquecê-la. Meu céu humano”.
Não sei se me tornei o leitor que o autor Mayrant Gallo esperava ter na nota do livro. Mas me diverti jogando com o texto, tentando montar seu quebra-cabeça móvel, que a todo momento deslocava os espaços das peças. Li-o, ao meu modo, ao influxo da “imaginação, do prazer e do acaso”. Com esta narrativa, Mayrant reforça o poder da literatura de estar para além das injunções históricas. No momento em que apregoam que a literatura deve dar voz aos desvalidos, Mayrant revela-a como espaço do jogo, do lúdico e do homem em todas as suas facetas.
Paulo André Correia. Professor substituto da UNEB e da Rede Estadual de Ensino.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Mera coincidência, São João fora de época do Picado e a macumba para turista




Qual a relação entre o São João do Picado e o o filme Mera coincidência?

Explico. Começo pelo filme.

O filme dirigido por Barry Levinson e estrelado por Dustin Hoffman e Robert de Niro conta a seguinte história: O presidente e canditado à reeleição envolve-se em um escândalo sexual, há 11 dias da eleição. Para solucionar o caso e impedir a derrota nas eleições, o presidente incumbe sua acessora de imprensa de resolver o problema. A solução encontrada por ela e pelo publicitário Conrad Brean – interpretado por De Niro – foi criar uma guerra fictícia contra a Albânia. Para construir o espetáculo da guerra, eles contratam o produtor de Hollywood Stanlay Moss (Hoffman) para produzir um verdade irrfutável aos moldes cinematógráficos. Esse é norte básico da excelente e irônica comédia.

A mídia cobre ou faz o fato?

Ao chegar do trabalho, noto todo um cenário junino montado no Picado. O que vai acontecer? A TV Bahia está cobrindo as festas juninas e veio “cobrir” a festa tradicional que está para acontecer com suas quadrilhas, músicas e barracas. Uma festa montada exclusivamente para repórteres e técnicos da TV. Ou como diria os Hengenheiros do Hawaii, “macumba para turista” e para turista baiano mesmo.

Hoje, 21 de maio, seria mais um dia qualquer no Picado. Novela para alguns, crianças na praças e alguns homens esquecendo de si, religiosamente, no jogo de dominó. A única coisa que maio traz diferente de outros meses são as novenas marianas, marcadas sobretudo pelas ladainhas a Virgem Santa. Depois da igreja, homens e mulheres voltariam à rotina banal. E a praça estaria entregue aos insetos e as estrelas, como acontece desde os inícios dos tempos.

Restano-nos, como os personagens de Drummond no poema “Segredo”, passar o óleo e esquecer. No caso, ouvi o bom pé-de-serra e esquecer. Pois, é a mesma história há 500 anos. Alguns poucos ganham, a imensa maioria perde.

Minhas Leituras

Deixo aqui um belo fragmento do romance Os encantos do sol, de Mayrant Gallo: 

[...] Não é à toa nem gratuita a conclusão de Boris Vian: "antes a pornografia que a guerra". Mais pornografia menos guerras. E é Truffaut que arremata: "Não se pode fazer amor da manhã à noite, por isso inventarm o trabalho". Por isso, inventaram a guerra, os tabletes de chocolates, os cartões dew crétido, os suplemtos de domingo nos jornais, os cultos religiosos, o telefone celular, os prazos de entrega de teses e dissertações, as teses, as dissertações...E as passeatas, os comícios, as reuniões, os estádios cheios, todas as manifestações que acabam em discurso ou palmas, os romances históricos e, claro, os histéricos - que não são poucos. Não mais que sucedâneos do orgasmo (p. 140).

Um escritor consciente de seu ofício.


segunda-feira, 11 de março de 2013

Mini conto

O  Colaborador
Na última reunião, o chefe comunicou a novidade: Todos agora seriam considerados colaboradores da empresa. Nada de funcionário ou empregado, colaboradores. Afinal, o que seria da empresa sem eles, os velhos e novos colaboradores. Antonio Carlos orgulhou-se de seu novo estado, apesar do salário continuar o mesmo e de gastá-lo antes mesmo da primeira quinzena do mês. Lembrou-se de todas as metas batidas, das horas a mais dedicadas ao trabalho, dos finais de semana voltados às planilhas e  aos cálculos. Mas a quem comunicaria sua nova situação. Os filhos só colaboravam no gasto da grana e a mulher passou a colaborar com outro antes mesmo do divórcio.  

domingo, 3 de março de 2013

Poema


Soneto Julgado

 

Sou eternamente julgado,

Sulgado pelos vórtices da dia.

Aquilo que cria acabado

voluteia num imensa orgia.

 

O sol,  impune, repete o ato,

o juiz uma vez mais sentencia

O que não se considerava culpado

e às vezes de inocente se fazia.

 

Assim segue sob o céu cobalto,

desenfreando o automóvel pela via

outros o seguem alucinados

 

sob a luz clara do meio dia,

pela multidão fria observados,

feito musgo em pedra fria.