quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Mini conto


O argumento



Os anos acumularam sobre a mesa do escritório os vários cadernos e blocos, as várias canetas e lápis. Acumularam-se também os vários livros sobre criação e escrita. Na rua, nada escapava a seu olhar. Via nas vidas dos outros um romance, um conto, uma novela, sepultados em textos incompletos. Tentou até um diário, perdido entre tantos outros cadernos em branco. Persistente, começou a correr atrás de argumentos.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Poemas do ócio

Graças a um ócio salutar e leituras de grandes autores, escrevi essas coisas que nomino poemas, espero não cometer nenhuma heresia à grande poesia e aos grandes poetas:



Na praia com Dickinson

O mar é meio esquisito,
Levar a vida a brincar,
a fingir de infinito.

Brinquedo no quintal


A Mangueira é só e basta,
eu, este outro a refletir o fim,
sentada, minha filha brinca,
finge de iludir.


Entre

Entre a tarde e o verso,
o excesso
e a praça de alimentação.


Entre a tarde e o verso,
O desejo
E uma Babel de pernas.


Entre a tarde e o verso,
A tarde e outra tarde,
Feita de versos.


(A tarde podre, de frutas
e memórias podres).


Entre a tarde e o verso,
O avesso e a valsa
Na tela da tarde.




domingo, 12 de agosto de 2012

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Um poema

"No final das contas, o que importa para o poeta a não publicação de seu livro, a não divulgação de seu livro, quando o que ele mais queria conseguiu realizar? A palavra desceu de sua altura, subiu do seu abismo e o encontrou. Ainda que críticos e leitores não sintam o mesmo na leitura do poema, e ainda que sua poesia não seja lá essas coisas, o poeta - aquele que escreve poemas - se sente sempre um Grande, um Aliviado, um Escolhido: não dos homens, mas dos anjos, de Deus, tão inefável é o êxtase que experencia."
(Ângela Vilma)



Poema

Fabricar gritos da alma
Recolher vozes da lama

Olhar avaro o beco
Rasurar as formas do verbo

Explorar mapas ancestrais
Transir a cidade fulgás

Recolher do século as cinzas
Lavrar os segredos do mito

Pintar as rotas do céu
Fundir a rosa e o sexo

Tudo isso no autorretrato rabiscado
Num dia triste de chuva.

Obrigado, Poeta, por traduzir, com palavras exatas, uma experiência que não sentia a meses, que me veio com essa coisa acima que chamo poema.  

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Minis de Natal e Ano Novo


NATAL

José e Maria mendicaram a solidariedade natalina durante todo o dia. Algumas roupas, sapatos, panetones e até um frango assado. Cansada e grávida, Maria mal chegou ao velho barraco improvisado sob o viaduto da Anunciação. A água morna escorreu pelas pernas. Pouco depois, expurgou uma coisa pequena. A estrela da árvore do shopping, à distancia, brilhava, intensa. Sob a luz dos automóveis frenéticos, José batizou Jesus.



ANO NOVO

Sem filhos, todos os anos, o velho casal renovava os votos de rancores.



RÉVEILLON

“Ano novo. Vida nova”. Disse, antes dos tiros misturarem-se aos fogos de artifícios.


quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Mini conto

Falsário

Especializou em falsificar Picasso.
Morreu em cubos.




quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A hora dos assassinos



Esse é o belíssimo título do ensaio de Henry Miller sobre o Rimbaud. É também a melhor expressão que nomeia o tempo em que estamos imersos. Esta é a hora dos assassinos. Dos estadistas assassinos, da economia assassina, dos assassinos diários, das crianças assassinas, do modo de vida assassino, da arte assassina. É também a hora dos medíocres.

Só nos resta seguir. “Ausentes” (como disse a poetisa Ângela Vilma em seu blog). Estranhos. Revoltados. Da revolta de Albert Camus. Entrincheirados nas melodias, imagens, versos, prosas que escapam à mediocridade geral.

Esta é a hora dos assassinos nos diz a arte de uma tumultuada lucidez.

Esta é a hora dos assassinos. Quanta revolta, quanta desilusão, quanta ânsia! Nada mais que crises, prostrações, alucinações e visões. Estremecem os alicerces da política, da moral, da economia e da arte. O ar está cheio de advertências e profecias sobre a derrocada que se aproxima […]. Chegamos ao fundo? Ainda não. […] Chegou a hora dos assassinos, não há como se enganar. A política transformou-se em negócio de gângsters. Os povos marcham para o céu, mas não cantam hosanas; os que ficaram aqui embaixo estão marchando rumo às filas de pão.