quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Minis de Natal e Ano Novo


NATAL

José e Maria mendicaram a solidariedade natalina durante todo o dia. Algumas roupas, sapatos, panetones e até um frango assado. Cansada e grávida, Maria mal chegou ao velho barraco improvisado sob o viaduto da Anunciação. A água morna escorreu pelas pernas. Pouco depois, expurgou uma coisa pequena. A estrela da árvore do shopping, à distancia, brilhava, intensa. Sob a luz dos automóveis frenéticos, José batizou Jesus.



ANO NOVO

Sem filhos, todos os anos, o velho casal renovava os votos de rancores.



RÉVEILLON

“Ano novo. Vida nova”. Disse, antes dos tiros misturarem-se aos fogos de artifícios.


quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Mini conto

Falsário

Especializou em falsificar Picasso.
Morreu em cubos.




quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A hora dos assassinos



Esse é o belíssimo título do ensaio de Henry Miller sobre o Rimbaud. É também a melhor expressão que nomeia o tempo em que estamos imersos. Esta é a hora dos assassinos. Dos estadistas assassinos, da economia assassina, dos assassinos diários, das crianças assassinas, do modo de vida assassino, da arte assassina. É também a hora dos medíocres.

Só nos resta seguir. “Ausentes” (como disse a poetisa Ângela Vilma em seu blog). Estranhos. Revoltados. Da revolta de Albert Camus. Entrincheirados nas melodias, imagens, versos, prosas que escapam à mediocridade geral.

Esta é a hora dos assassinos nos diz a arte de uma tumultuada lucidez.

Esta é a hora dos assassinos. Quanta revolta, quanta desilusão, quanta ânsia! Nada mais que crises, prostrações, alucinações e visões. Estremecem os alicerces da política, da moral, da economia e da arte. O ar está cheio de advertências e profecias sobre a derrocada que se aproxima […]. Chegamos ao fundo? Ainda não. […] Chegou a hora dos assassinos, não há como se enganar. A política transformou-se em negócio de gângsters. Os povos marcham para o céu, mas não cantam hosanas; os que ficaram aqui embaixo estão marchando rumo às filas de pão.


quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Poema


Quase soneto


Todos os meus dilemas,
Todos os nós do umbigo
inscrevi em cinco poemas
e me calei na arena dos gritos.

Vendi a alma ao inimigo,
cifrei os segredos da esfíngie
e me atirei no precipício,
fugindo das rotas tortas dos tiros.

Nas cidades, labirinto do sem rosto,
entre mendigos, negócios e novenas,
entrei em cena como um cisto.

Entre os altos e baixos da bolsa,
entre as coxas de Madalena,
encenei a sina de um Sísifo.

sábado, 27 de agosto de 2011

Poema


Poema só para Lidi Nunes

Queria te dizer palavras belas, amiga,
palavras que lavassem tua dor e tristeza.
Mas sou da estirpe dos desiludidos,
Por isso, só posso te dizer, amiga:
“A vida não vale a pena e a dor de ser vivida.
Os corpos [ás vezes] se entendem, mas as almas não”.

sábado, 20 de agosto de 2011

Poema

Amanhã iremos partir


P/ o poeta Georgio Rios


Amanhã, amigo, iremos partir.

Eu, para longe da casa de telha-vã.

Tu, em busca da Aldebarã.


Amanhã, amigo, iremos partir.

Tu, para os pastos da alma.

Eu, para a cidade sitiada.


Amanhã, amigo, iremos partir.

Tu, andarilho do tempo.

Eu, entre tantos, correndo.


Amanhã, amigo, iremos partir.

Tu, pelas estradas de teus dedos.

Eu, pelas estradas de meus medos.


Amanhã, amigo, iremos partir.

Tu, apascentando versos.

Eu, extraindo dentes.


Amanhã iremos partir.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Poema

Canção e exílio

Na casa vazia
No quarto vazio
O espelho
divide a vida
Que notícias nos traz do lado de lá?
O espelho é impassível
Só nos diz do pânico de cá.