quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A hora dos assassinos



Esse é o belíssimo título do ensaio de Henry Miller sobre o Rimbaud. É também a melhor expressão que nomeia o tempo em que estamos imersos. Esta é a hora dos assassinos. Dos estadistas assassinos, da economia assassina, dos assassinos diários, das crianças assassinas, do modo de vida assassino, da arte assassina. É também a hora dos medíocres.

Só nos resta seguir. “Ausentes” (como disse a poetisa Ângela Vilma em seu blog). Estranhos. Revoltados. Da revolta de Albert Camus. Entrincheirados nas melodias, imagens, versos, prosas que escapam à mediocridade geral.

Esta é a hora dos assassinos nos diz a arte de uma tumultuada lucidez.

Esta é a hora dos assassinos. Quanta revolta, quanta desilusão, quanta ânsia! Nada mais que crises, prostrações, alucinações e visões. Estremecem os alicerces da política, da moral, da economia e da arte. O ar está cheio de advertências e profecias sobre a derrocada que se aproxima […]. Chegamos ao fundo? Ainda não. […] Chegou a hora dos assassinos, não há como se enganar. A política transformou-se em negócio de gângsters. Os povos marcham para o céu, mas não cantam hosanas; os que ficaram aqui embaixo estão marchando rumo às filas de pão.


quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Poema


Quase soneto


Todos os meus dilemas,
Todos os nós do umbigo
inscrevi em cinco poemas
e me calei na arena dos gritos.

Vendi a alma ao inimigo,
cifrei os segredos da esfíngie
e me atirei no precipício,
fugindo das rotas tortas dos tiros.

Nas cidades, labirinto do sem rosto,
entre mendigos, negócios e novenas,
entrei em cena como um cisto.

Entre os altos e baixos da bolsa,
entre as coxas de Madalena,
encenei a sina de um Sísifo.

sábado, 27 de agosto de 2011

Poema


Poema só para Lidi Nunes

Queria te dizer palavras belas, amiga,
palavras que lavassem tua dor e tristeza.
Mas sou da estirpe dos desiludidos,
Por isso, só posso te dizer, amiga:
“A vida não vale a pena e a dor de ser vivida.
Os corpos [ás vezes] se entendem, mas as almas não”.

sábado, 20 de agosto de 2011

Poema

Amanhã iremos partir


P/ o poeta Georgio Rios


Amanhã, amigo, iremos partir.

Eu, para longe da casa de telha-vã.

Tu, em busca da Aldebarã.


Amanhã, amigo, iremos partir.

Tu, para os pastos da alma.

Eu, para a cidade sitiada.


Amanhã, amigo, iremos partir.

Tu, andarilho do tempo.

Eu, entre tantos, correndo.


Amanhã, amigo, iremos partir.

Tu, pelas estradas de teus dedos.

Eu, pelas estradas de meus medos.


Amanhã, amigo, iremos partir.

Tu, apascentando versos.

Eu, extraindo dentes.


Amanhã iremos partir.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Poema

Canção e exílio

Na casa vazia
No quarto vazio
O espelho
divide a vida
Que notícias nos traz do lado de lá?
O espelho é impassível
Só nos diz do pânico de cá.

domingo, 1 de maio de 2011

Um poema

Essa coisa


Essa coisa áspera

Essa coisa crespa


Essa coisa ácida

Essa coisa vesga


Essa coisa crassa

Essa coisa ego


Essa coisa vaga

Essa coisa sexo


Essa coisa sal

Essa coisa ferro


Essa coisa muda

Essa coisa verbo


Essa coisa que me excede

Numa sexta cinza


Essa coisa não diz quem sou

domingo, 27 de março de 2011

Bosques por onde passeio

O Modus Operandi de uma rica alquimia poética


Georgio Rios é um fatalizado. Essa confirmação me veio com a leitura do seu Modus operandi (2010). Ele desencrava imagens e as enforma na música do verso para cravá-las outra vez no leitor. Ao folhear o livro em busca do inesperado, deparei-me com “Labirinto”, poema que abre a coletânea. O poema revela o trabalho alquímico de Georgio de transformar tudo em música e metáfora:


A humanidade é um vasto jardim,

com suas flores de hastes decepadas.


Tanger as labaredas

e

vagar por

este vasto jardim


Digladiando o imenso

labirinto...


E suas humanas flores

decepadas (p. 17).


Outro poema ferido e que fere com imortal beleza é “Metáfora”. Nele o “fingidor” revela-se uma andarilho numa estrada aberta entre os dedos: Sou o que sou// Sou cais/andarilho de destino comum//Sem tréguas/nem datas//Numa estrada aberta entre meu dedos”. A imagem desse poema envolve de frescor a velha metáfora do homem e do poeta com um caminhante numa estrada que vai do nada ao nada.


“Verdades” nos fere com a imagem do homem em busca do inefável:


Gosto de tudo que não conheço:


Das cores que não sei

Das fotos que não vi

Dos livros que nunca li


Das coisas que não sei

Dos versos que nunca escrevi (p. 22).


Enumeraria outros tantos que me tocaram enquanto leitor. Isso só revela a forma de Georgio de desentranhar a poesia das situações mais cotidianas como revelam os poemas “Hoje é domingo”, “Sábado”, “Meu quarto”, “O retrato dos pássaros na tarde” etc.


Modus operandi, apesar de minha inquietação com o título, revela o modo de operar do poeta Georgios Rios: a alquimia poética que transforma até a escatologia contemporânea em poema como em “Jardins Assustadores”:


As cores lúcidas

em gris transformadas


Cores pálidas

pousando sobre o rosto do homem

ser mambembe


Estamos todos com tinta no rosto

nesta história


Rostos lavados

na chuva suja


E o medo, bailando,

sob o olhar sinistro do fuzil


E estamos andando...

E sorrindo sem saber,

nesta caminhada errante

para o fim das história. (p. 46)


É isso, Georgio Rios é um fatalizado pela expressão poética. A poesia o escolheu para encantar o mundo, para promover o encontro do homem consigo mesmo.