De que adianta falar do mar para os gatos,
o mar está em mim.
Os gatos só sabem do que lhes foi ensinado à espécie no início dos tempos.
Somos nós que navegamos por este mar
absoluto, de águas e palavras e sal
das estátuas carcomidas.
Os gatos não sabem do mar,
nem desse brumoso navegar.
sábado, 29 de agosto de 2009
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
À noite, todos os gatos são pardos
Não lembro quando começamos aquilo. Ninguém acendia a luz se o outro estivesse deitado. Às vezes, eu vinha primeiro, deitava-me e esperava. Ela chegava pouco depois, ainda molhada do banho. Via a toalha escorregar sobre seu corpo úmido sob a penumbra do quarto. Pegava os potes de cremes e hidratantes um após o outro. Gostava de vê-la despejando-os nas mãos e deslizando pelo corpo: os seios fartos, o ventre redondo, as coxas grossas. Depois jogava-se sob a coberta roçando o corpo no meu. Eu já impaciente, lançava-me à cartografia de seu corpo. E trepávamos adiando o silêncio diáfano da noite.
E o dia acordava com uma suave fragrância, presente de seu último aniversário. Ela, com os cabelos úmidos, parecia prolongar a noite anterior. À mesa, o café nos esperava para as pequenas simetrias: os pães, o suco, por fim o café, que bebíamos prolongando a despedida.
“Também te amo”, eu repetia já pegando minha bolsa para ir às aulas.
Quando não assim, ela vinha primeiro. Eu ficava escrevendo alguma coisa ou corrigindo atividades de alunos. Estendia-me nestas tarefas até a exaustão. E então ia deitar. Abria a porta. Deixava o copo com a prótese dentária sobre a cômoda e, num roteiro já definido na escuridão do quarto, tomava meu lugar no lado esquerdo da cama. E desabava no sono, só despertando às seis, com o som estridente do velho rádio relógio. O café era menos demorado e umbom dia seco me jogava na rua.
Nestes dias, prolongava minhas aulas. Falava duas horas seguidas sobre “Sôbolos rios que vão”. A maior parte da sala dormia. Camões já tinha ido às pampas há muito tempo. Ou então, analisava uma lira de Gonzaga. Brincava com a turma, dizia que o poema era um convite clássico para uma trepada. E que também era uma reflexão de como “aproveitar-se o tempo, antes que faça o estrago de roubar o corpo as forças, e ao semblante, a graça”. alguns riam, mas a maior parte ainda preferia um convite menos cult. A sirene tocava adiando o assunto para a próxima aula.
Em casa, ela esperava a senha para abrir um sorriso discreto. Havia uma pequena expectativa que nos fazia pisar em ovos. Umas provas a corrigir a levava para o quarto mais cedo sem nem dizer um “boa noite, querido”. Nunca discutíamos. Qualquer sinal de uma irritação o outro cedia, e havia aquela norma que os anos de uma vida a dois nos foi impondo. E que seguíamos a risca.
Mas há fissuras do real: um cego num ponto de ônibus, uma fuga de galinha, um risco de luz num quarto, que nos desperta e põe a fogo nossos códigos. Aconteceu num desses dias em que fui para o quarto primeiro. Ela chegou em sua toalha buscando os potes de cremes e hidratantes, deslizando-os em sua pele macia. Quando abria um dos potes, a tampa rolou de suas mãos e postou-se num canto escuro do quarto. Ela não o deixaria aberto. Sempre reclamava quando eu deixava o desodorante mal tampado, a toalha sobre a cama ou um sapato fora da caixa. Sim, senti que ela iria acender a lâmpada. Esperei.
Sua mão deslizou pela parede buscando o interruptor. Ouvi o clique. Ela nua em minha frente. Olhou-me e se agachou para pegar a toalha. Olhei-a e vi: seus seios pareciam se despregar do corpo, sua barriga parecia ganhar uma forma amorfa e de suas coxas grossas despencavam suas carnes flácidas. Ela também deve ter notado minha falência. Em seus olhos havia espanto.
Outro clique. O pote fechado voltara a seu lugar geometricamente delineado na cômoda. E ela deitou-se buscando seu lado da cama. Nesta noite não trepamos. A madrugada toda se encheu de grilos e gritos distantes. E de dentro da noite procurei a ave noturna, mas só encontrei minha própria voz martelando um noturno de Quintana. Ao meu lado podia sentir seus olhos abertos, procurando, na implacável solidão noturna, algum diamante perdido.
Mas havia a aurora e havia Clarice. E, à noite, eu fui o primeiro a entrar para o quarto.
E o dia acordava com uma suave fragrância, presente de seu último aniversário. Ela, com os cabelos úmidos, parecia prolongar a noite anterior. À mesa, o café nos esperava para as pequenas simetrias: os pães, o suco, por fim o café, que bebíamos prolongando a despedida.
“Também te amo”, eu repetia já pegando minha bolsa para ir às aulas.
Quando não assim, ela vinha primeiro. Eu ficava escrevendo alguma coisa ou corrigindo atividades de alunos. Estendia-me nestas tarefas até a exaustão. E então ia deitar. Abria a porta. Deixava o copo com a prótese dentária sobre a cômoda e, num roteiro já definido na escuridão do quarto, tomava meu lugar no lado esquerdo da cama. E desabava no sono, só despertando às seis, com o som estridente do velho rádio relógio. O café era menos demorado e umbom dia seco me jogava na rua.
Nestes dias, prolongava minhas aulas. Falava duas horas seguidas sobre “Sôbolos rios que vão”. A maior parte da sala dormia. Camões já tinha ido às pampas há muito tempo. Ou então, analisava uma lira de Gonzaga. Brincava com a turma, dizia que o poema era um convite clássico para uma trepada. E que também era uma reflexão de como “aproveitar-se o tempo, antes que faça o estrago de roubar o corpo as forças, e ao semblante, a graça”. alguns riam, mas a maior parte ainda preferia um convite menos cult. A sirene tocava adiando o assunto para a próxima aula.
Em casa, ela esperava a senha para abrir um sorriso discreto. Havia uma pequena expectativa que nos fazia pisar em ovos. Umas provas a corrigir a levava para o quarto mais cedo sem nem dizer um “boa noite, querido”. Nunca discutíamos. Qualquer sinal de uma irritação o outro cedia, e havia aquela norma que os anos de uma vida a dois nos foi impondo. E que seguíamos a risca.
Mas há fissuras do real: um cego num ponto de ônibus, uma fuga de galinha, um risco de luz num quarto, que nos desperta e põe a fogo nossos códigos. Aconteceu num desses dias em que fui para o quarto primeiro. Ela chegou em sua toalha buscando os potes de cremes e hidratantes, deslizando-os em sua pele macia. Quando abria um dos potes, a tampa rolou de suas mãos e postou-se num canto escuro do quarto. Ela não o deixaria aberto. Sempre reclamava quando eu deixava o desodorante mal tampado, a toalha sobre a cama ou um sapato fora da caixa. Sim, senti que ela iria acender a lâmpada. Esperei.
Sua mão deslizou pela parede buscando o interruptor. Ouvi o clique. Ela nua em minha frente. Olhou-me e se agachou para pegar a toalha. Olhei-a e vi: seus seios pareciam se despregar do corpo, sua barriga parecia ganhar uma forma amorfa e de suas coxas grossas despencavam suas carnes flácidas. Ela também deve ter notado minha falência. Em seus olhos havia espanto.
Outro clique. O pote fechado voltara a seu lugar geometricamente delineado na cômoda. E ela deitou-se buscando seu lado da cama. Nesta noite não trepamos. A madrugada toda se encheu de grilos e gritos distantes. E de dentro da noite procurei a ave noturna, mas só encontrei minha própria voz martelando um noturno de Quintana. Ao meu lado podia sentir seus olhos abertos, procurando, na implacável solidão noturna, algum diamante perdido.
Mas havia a aurora e havia Clarice. E, à noite, eu fui o primeiro a entrar para o quarto.
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Poema
Na gaveta de achados e perdidos
guardei versos de faca
entre a capa e a contracapa de um livro.
Tecido de memória e mapas,
rasurado entre a cidade
e os rasgos da infância.
Não sei se havia segredos.
A chave joguei-a ao vento
entre mitos e eras.
Mas havia a menina
esquecida do tempo e do rito
ventre aberto vomitando borboletas.
guardei versos de faca
entre a capa e a contracapa de um livro.
Tecido de memória e mapas,
rasurado entre a cidade
e os rasgos da infância.
Não sei se havia segredos.
A chave joguei-a ao vento
entre mitos e eras.
Mas havia a menina
esquecida do tempo e do rito
ventre aberto vomitando borboletas.
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Poema
Meus versos são feitos de faca
a palavra exata me exaspera
na espera dissonante.
Assim sou poeta e cego,
enxergo vozes no escuro
e sou verso de poetas velhos.
Esta é minha condição:
sombra vergastada por outras vozes.
E assim só me resta seguir
senhor e servo das horas.
terça-feira, 28 de julho de 2009
Insonia II
A noite está cheia de pregos. Não me venham com histórias de que a lua exibi-se lascívia. Já não tenho o tesão dos vinte anos. Para que escrever poemas sobre a noite se ela sempre vem. E vem cheia de pregos. De nada adianta. Só me faz sentir cada ponta de prego dilacerar meu corpo. Quem dera pudesse escrever com a agudeza angustiante de Cioran. Mas sou um reles pateta, perdido da noite. O pior de tudo é ouvir os galos que carregam a negação de Pedro. Que espécie mais infame, a cada canto recorda-me que minha jornada noite adentro será longa. A noite me tira qualquer possibilidade de comunicação. Estou só ante a noite e essa dor no peito. Estou só e nu. A noite me despe de todas as máscaras. Um sujeito fraco e mesquinho é o que resta de mim dentro da noite. E enquanto os pássaros despertam, despeço-me da noite até logo mais e aguardo seu retorno, cheia de pregos.
terça-feira, 21 de julho de 2009
Miller
Trópico de Câncer, de Henry Miller, foi um livro que adquirir há cinco ou seis anos. Não o conseguir ler todo na primeira leitura. Ainda não era o leitor maduro para o livro. Há poucos dias, deparei-me com o livro na estante, peguei-o e li as primeiras páginas. Não consegui parar. Cada frase de Miller foi sendo cravada, verdades ásperas de um mundo infame. E que fotografia da Paris dos anos 30, e suas ruas sujas. Deixo aqui algumas marcas desta leitura iluminada:
"[...] Isto não é um livro. Isto é injuria, calúnia, difamação de caráter. Isto não é um livro, no sentido comum da palavra. Não, é um prolongado insulto, uma cusparada na cara da Arte, um pontapé no trazeiro de Deus, do Homem, do Destino, do Tempo, da Beleza... e do que mais quiserem. Vou cantar para você, um pouco desafinado talvez, mas vou cantar. Cantarei enquanto você coaxa, dançarei sobre seu cadáver sujo..."
"Quando olho para dentro dessa boceta fodida de puta sinto o mundo inteiro embaixo de mim, um mundo vacilante e desmoronante, um mundo gasto e polido como um crânio leproso. Se houvesse um homem que ousasse dizer tudo quanto pensa deste mundo, não lhe restaria um palmo quadrado de terra onde ficar".
"[...]Quem dotado de um olho desesperado e faminto, pode ter o mais ligeiro respeito por esses governos existentes, essas leis, códigos, princípios, ideais, idéias, totens e tabus? Se alguém soubesse o que significa ler o enigma daquela coisa que hoje é chamada de 'racha' ou 'buraco', se alguém tivesse o menor sentimento de mistério sobre os fenômenos qualificados 'obscenos', este mundo partir-se-ia em pedaços. É o horror obsceno, o aspecto fodido e seco das coisas que faz esta civilização parecer uma cratera".
Post Miller:
As aventuras de Vadico I
Seria sua primeira buceta branca, pensou quando a avistou cruzando o campo. Conferiu, pela última vez, a presença da faca. Seu pau latejava. Ação foi rápida. Em poucos minutos conduziu-a ao matagal ao lado do campo. Lá, a garota riu, irônica, quando Vadico se aliviou sozinho, deixando-a intata. A ele, só restou esconder as gengivas limpas, suspender derrotado as calças e correr ao escuro do campo.
"[...] Isto não é um livro. Isto é injuria, calúnia, difamação de caráter. Isto não é um livro, no sentido comum da palavra. Não, é um prolongado insulto, uma cusparada na cara da Arte, um pontapé no trazeiro de Deus, do Homem, do Destino, do Tempo, da Beleza... e do que mais quiserem. Vou cantar para você, um pouco desafinado talvez, mas vou cantar. Cantarei enquanto você coaxa, dançarei sobre seu cadáver sujo..."
"Quando olho para dentro dessa boceta fodida de puta sinto o mundo inteiro embaixo de mim, um mundo vacilante e desmoronante, um mundo gasto e polido como um crânio leproso. Se houvesse um homem que ousasse dizer tudo quanto pensa deste mundo, não lhe restaria um palmo quadrado de terra onde ficar".
"[...]Quem dotado de um olho desesperado e faminto, pode ter o mais ligeiro respeito por esses governos existentes, essas leis, códigos, princípios, ideais, idéias, totens e tabus? Se alguém soubesse o que significa ler o enigma daquela coisa que hoje é chamada de 'racha' ou 'buraco', se alguém tivesse o menor sentimento de mistério sobre os fenômenos qualificados 'obscenos', este mundo partir-se-ia em pedaços. É o horror obsceno, o aspecto fodido e seco das coisas que faz esta civilização parecer uma cratera".
Post Miller:
As aventuras de Vadico I
Seria sua primeira buceta branca, pensou quando a avistou cruzando o campo. Conferiu, pela última vez, a presença da faca. Seu pau latejava. Ação foi rápida. Em poucos minutos conduziu-a ao matagal ao lado do campo. Lá, a garota riu, irônica, quando Vadico se aliviou sozinho, deixando-a intata. A ele, só restou esconder as gengivas limpas, suspender derrotado as calças e correr ao escuro do campo.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
“O gato por dentro”
Um amigo escritor sempre me disse que nada acontece por acaso. Duvidava da frase. Eu rezava no credo sartreano: "O homem é suas escolhas". Um utro amigo poeta, tempos atrás, deu-me o livro de William Burrougs, O gato por dentro, em que que o escritor americano, num tom de ironia amarga, contava sua vivência com gatos. Li deliciosamente esse livro que me permitia entra na alma felina e na alma humana, afinal os gatos sempre estiveram presente na minha vida . Chegavam não sei de onde e se instalavam.
Foi o caso de Gatinha. Chegou e tomou posse da casa. Deu-me umas três ou quatro ninhadas de gatos, que iam se acumulando ou substituindo os desistentes, os que sumiam sem deixar vestígios.
Ao despejar a par de terra sobre o buraco improvisado para mãe e filho, recordei a dedicatória do amigo poeta: "ao amigo, que agora sei que sentia algumas dores inexplicáveis. Ele tinha o gato por dentro". Sim, "somos gatos por dentro". Os gatos que não podem andar sozinhos, e para nós há apenas um lugar". Nada acontece por acaso.
Foi o caso de Gatinha. Chegou e tomou posse da casa. Deu-me umas três ou quatro ninhadas de gatos, que iam se acumulando ou substituindo os desistentes, os que sumiam sem deixar vestígios.
Gatinha cuidava de sua última ninhada. Numa manhã, ela e um dos filhotes amanheceram mortos. Comeram restos de veneno para ratos no quintal dos vizinhos. Encontrei estática no fundo do quintal, o filhote ainda agonizou alguns instantes.
Minha filha, ao meu lado, assistia a tudo sem muito espanto. Era sua primeira morte.Ao despejar a par de terra sobre o buraco improvisado para mãe e filho, recordei a dedicatória do amigo poeta: "ao amigo, que agora sei que sentia algumas dores inexplicáveis. Ele tinha o gato por dentro". Sim, "somos gatos por dentro". Os gatos que não podem andar sozinhos, e para nós há apenas um lugar". Nada acontece por acaso.
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